Os Acidentes Vasculares Cerebrais são entre nós a principal causa de morte e um dos principais problemas de saúde pública, não só pela sua elevada incidência e prevalência mas também pelos seus custos pessoais, familiares, económicos e sociais.

Representando na sua grande maioria dos casos, o resultado de estilos de vida e hábitos alimentares prejudiciais, e conhecidos que são os principais factores de risco, a sua prevenção depende fundamentalmente da qualidade dos cuidados primários de saúde e duma correcta informação e educação sanitária da população, necessário se torna, pois, avaliar o funcionamento dos Centros de Saúde no que se refere a esta patologia, as verbas e recursos de que dispõem, nomeadamente quadros médicos, de enfermagem e assistentes sociais, a sua motivação e formação para o cabal desempenho da sua missão.

Dados os recentes avanços tecnológicos e terapêuticos, o AVC para além de constituir uma emergência médica, que deva ser tratada como tal, é uma entidade cuja mortalidade e morbilidade dependem em grande parte da organização e da qualidade dos cuidados hospitalares; a instituição hospitalar deve assumir por inteiro e com maior qualidade as suas responsabilidades: instalações adequadas (Serviço de Urgência, enfermarias, consulta externa, hospital de dia), profissionais competentes e em número suficiente, equipa multidisciplinar, treino dos familiares, controlo periódico dos doentes após a alta e avaliação dos resultados, apoio logístico e especializado aos Centros de Saúde e outras entidades envolvidas na organização e coordenação dos cuidados continuados a estes doentes.

Assim se compreende a necessidade duma correcta e constante articulação entre os cuidados primários de saúde e o Hospital e o papel fulcral que este deve assumir na gestão integrada dum plano global, por que o tratamento dos acidentes vasculares cerebrais exige a continuidade de cuidados, com a participação de outras entidades, após o regresso do doente à comunidade e à sua família (prevenção de eventuais recidivas, recuperação de funções motoras e cognitivas, apoio domiciliário, reintegração familiar, social e profissional).

A comunidade e as suas diversas associações cívicas e voluntárias, nomeadamente as associações de doentes e de utentes de saúde desempenham um papel importante no controlo da qualidade dos cuidados prestados pelas instituições públicas e privadas; devem ser consideradas parceiros privilegiados a nível local não só pela sua experiência directa no apoio domiciliário aos doentes graves e suas famílias – funções da maior relevância que o Estado negligencia – mas também por que, frequentemente, desempenham um papel muito importante na informação da população e na melhoria da qualidade de vida destes doentes. Neste aspecto, a Associação AVC de Barcelos, com provas dadas, para além da sua disponibilidade para participar em qualquer projecto sério, constitui uma garantia de defesa dos interesses e direitos dos doentes, nomeadamente quando as instituições de saúde por alterações conjunturais do seu estatuto jurídico ou qualquer outra causa tendam a furtar-se a esse controle ou a impor, unilateralmente, soluções que não correspondam às reais necessidades dos cidadãos contribuintes.

Também as autarquias locais podem envolver-se neste plano global, na exacta medida das suas competências e disponibilidades, garantindo apoio logístico (centros de dia,. transportes, remoção de barreiras arquitectónicas e melhoria de acessibilidades, reintegração profissional e social, etc.) e a defesa coerente das legítimas aspirações da população no sector da saúde.

Pelo que fica exposto se torna evidente que a complexidade doa Acidentes Vasculares Cerebrais, com incidências preventivas, terapêuticas, económicas e sociais, exige uma abordagem multidisciplinar e um planeamento e coordenação locais duma rede integrada de cuidados que garanta aos nossos doentes a qualidade de tratamento que se exige em qualquer pais europeu.

Antes de apresentar o Plano Global, que consideramos apenas como um modelo ideal e uma contribuição para o esclarecimento público, necessário se torna analisar a situação actual, ponto de partida para um trabalho sério em que, desde sempre, estamos empenhados.

A necessidade duma estratégia local para os acidentes vasculares cerebrais resulta da evidência de que estes doentes, em muitos casos, não recebem o tratamento mais adequado em tempo útil por deficiências dos serviços de saúde, seja por carência de recursos técnicos e humanos, gestão incompetente ou falhas na organização e direcção de serviços.

A rede integrada de cuidados de saúde para os acidentes vasculares cerebrais começa pela organização e qualidade dos Centro de Saúde, aos quais compete não só uma informação adequada aos seus utentes e a prevenção primária e secundária do AVC, mas também o seguimento domiciliário dos doentes mais graves e acamados e a gestão dos apoios especializados disponíveis e/ou necessários. Actualmente os centros de saúde, com graves carências estruturais e recursos técnicos e humanos (médicos, enfermeiros, assistentes sociais) em número insuficiente, estão sujeitos a um novo tipo de gestão e a uma política de saúde que pode comprometer a formação continua, a autonomia e a motivação dos seus profissionais.

No entanto, e mesmo nas actuais circunstâncias, a coordenação da sua actividade com o Hospital e outras instituições prestadoras de cuidados a estes doentes é indispensável, deve estar protocolada e ser avaliada duma forma responsável e continuada. O Hospital de Barcelos, com um novo estatuto jurídico há mais de um ano, continua sem instalações adequadas, meios técnicos, profissionais em número suficiente, preparados e motivados, uma organização e lideranças que promovam a cultura de excelência que se deve exigir ao principal recurso da saúde da população.

Se é certo que a actual política de saúde condiciona eventuais e desejáveis alterações (e mesmo a exequibilidade de qualquer plano...) convêm apontar alguns requisitos necessários a um tratamento hospitalar correcto dos acidentes vasculares cerebrais e à credibilidade da própria instituição:

  • Sendo o AVC uma emergência médica, para além de participar na informação e formação de paramédicos e pessoal de transportes de doentes, o Hospital tem de dispor de instalações adequadas no Serviço de Urgência que, por um lado, garantam um atendimento imediato e especializado, em condições de higiene e que respeitem a intimidade e a privacidade do doente e, por outro, permitam a organização e permanência nesse serviço de equipas multidisciplinares; para além disso, o hospital deve estar apetrechado com os meios técnicos indispensáveis ao correcto diagnóstico e tratamento destes doentes (TAC, Telemedicina), evitando perda de tempo e os riscos inerentes ao transporte dos doentes para outros centros. Estas são reivindicações antigas (e nunca satisfeitas...) dos médicos do hospital que, a não serem consideradas e resolvidas, poderão inviabilizar a curto prazo a admissão directa de doentes com acidentes vasculares cerebrais no nosso hospital.
  • O tratamento dos AVC, durante o internamento hospitalar, na impossibilidade estrutural dum serviço autónomo, exige a existência duma equipa multidisciplinar (neurologista, internista, enfermeiro/a de reabilitação, terapeuta ocupacional, psicólogo, assistente social, nutricionista e outros especialistas) que, em sintonia com a direcção do serviço de Medicina e o suporte constante da administração, garanta uma organização das enfermarias adequada à fisioterapia precoce e ao treino dos familiares ou cuidadores dos doentes, se responsabilize pela qualidade do tratamento e assegure a articulação e coordenação das entidades e serviços responsáveis pela reabilitação e continuidade de cuidados de que estes doentes necessitam.
  • Esta continuidade de cuidados exige do Hospital, desde a admissão do doente, a integração da família no programa terapêutico, o planeamento consensual da alta hospitalar, a a oportuna troca de informações com os cuidados primários de saúde, a garantia de apoio especializado na comunidade (serviço domiciliário) e, a todo o tempo, a análise e avaliação dos resultados obtidos. Trata-se, no caso concreto do nosso hospital, de retomar e desenvolver um trabalho pioneiro de profissionais de saúde na década de 90, inviabilizado por decisões unilaterais e comprovadamente desajustadas da anterior gestão e que tiveram graves repercussões na qualidade dos cuidados prestados pelo Hospital.

Em resumo

Uma vez aprovado o “Plano Global para os Acidentes Vasculares Cerebrais” na área da Unidade de Saúde do Baixo Cávado”, implementadas as alterações necessárias em cada sector e instituição e assegurada uma gestão competente e motivadora da rede integrada de cuidados, todo o utente em risco de AVC teria garantido:

  • Acesso a informação, vigilância periódica e tratamento de factores de risco no Centro de Saúde (médico de família).
  • Acesso, em tempo útil, a consultas de especialidade e a meios de diagnóstico hospitalares.
  • Atendimento urgente no Hospital – Serviço de Urgência ou Hospital de Dia – sempre que necessário.

E a cada doente com um acidente vascular cerebral:

  • Transporte de emergência no Serviço de Urgência do Hospital.
  • Diagnóstico e tratamentos urgentes.
  • Internamento hospitalar, avaliação e tratamento por equipa especializada.
  • Fisioterapia e reabilitação precoces por especialista.
  • Treino de familiares/cuidadores de enfermaria durante o internamento.
  • Garantia de tratamento de Fisioterapia e Reabilitação após alta.
  • Garantia de articulação com os Centros de Saúde e de cuidados continuados.
  • Acompanhamento, desde a admissão, por Assistente Social.
  • Seguimento, prevenção secundária e apoio domiciliário pelo Centro de Saúde.
  • Avaliação periódica, consultas externas e domiciliárias especializadas.

O mais importante para melhorar a qualidade dos cuidados de saúde nos acidentes vasculares cerebrais é informar e dar força aos doentes e suas famílias.

Nesse sentido, e no exercício das suas funções, a associação AVC de Barcelos torna público este documento. Produto duma reflexão crítica sobre as nossas realidades e necessidades, disponibilizando-se desde já a integrar qualquer iniciativa que vise melhorar a qualidade dos serviços locais de saúde. No sentido de fomentar a participação cívica e reforçar a capacidade de intervenção dos seus associados no controle e exigência de qualidade na Saúde a associação vai facultar-lhes informação escrita e as recomendações nacionais e europeias sobre a problemática dos Acidentes Vasculares Cerebrais.

Barcelos, 5 de Março de 2004
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